“Te conhecer foi algo extraordinário, como de um dia pro outro ganhar asma. Minha mãe sempre dizia pra não andar de pés descalços e tudo que eu fiz foi piscar na hora errada. Minhas defesas caíram e agora você taí, respirando meu ar e comendo meus iogurtes, como uma infecção parasitária que me faz tão bem. E se antes eu já não visitava o médico, agora mesmo que não tenho vontade alguma de cura.”
“Não, eu não quero ser medíocre, não. Deus não me deu esse estômago enjoado, essa alergia encantada de vida e esse coração disparado à toa. Eu devo ser especial, eu devo ter algum talento. Não, eu não quero ser medíocre, não eu não quero desistir, não quero optar pelo caminho mais fácil, não quero que a energia negativa me enterre.”
“É que a minha mão encaixa di-rei-ti-nho na tua cintura, é isso! É uma coisa boba. É uma casualidade. É um detalhe. É isso: quantas mãos e cinturas não se encaixam por aí? Quanta coisa não se encaixa? Mas o meu medo no teu encaixa. Meu dia no teu. Minhas falas nas tuas. Meu passado no teu. E até o que não se encaixa parece propositalmente feito para isso. Como nós: propositalmente destino. Porque encaixa, entende? E eu não entendo como, não sei de onde, não posso te explicar. Essas coisas sem explicação vivem na minha cabeça, inomináveis. Mas quem precisa de nome quando a mão cabe direitinho na cintura? Quem precisa de mais quando até o silêncio se entende? E eu fico dizendo que é só por essas coisas para não ter que admitir que é muito, muito mais. Eu e você: é por muito mais.”